FILME – Janela da Alma

junho 1, 2009

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Sinopse

Dezenove pessoas com diferentes graus de deficiência visual, da miopia discreta à cegueira total, falam como se vêem, como vêem os outros e como percebem o mundo.

O escritor e prêmio Nobel José Saramago, o músico Hermeto Paschoal, o cineasta Wim Wenders, o fotógrafo cego franco-esloveno Evgen Bavcar, o neurologista Oliver Sacks, a atriz Marieta Severo, o vereador cego Arnaldo Godoy, entre outros, fazem revelações pessoais e inesperadas sobre vários aspectos relativos à visão: o funcionamento fisiológico do olho, o uso de óculos e suas implicações sobre a personalidade, o significado de ver ou não ver em um mundo saturado de imagens e também a importância das emoções como elemento transformador da realidade  se é que ela é a mesma para todos.

Informações Técnicas

Título no Brasil: Janela da Alma
País de Origem:Brasil
Gênero:Documentário
Tempo de Duração: 73 minutos
Ano de Lançamento: 2002
Direção: João Jardim, Walter Carvalho

→ Considerações: Breno Martins Rêgo

Já tinha assistido este documentário logo quando foi lançado, outro dia pesquisando na internet vídeos para colocar em um post deste mesmo blog, me deparei com trechos deste exelente filme. Ao revê-lo senti uma necessidade grande em compartilhar com vocês, caros seis leitores, uma ótima oportunidade de reunir a família para um debate interessantíssimo.

Senti arrepio, ri em diversos trechos, achei lindo, achei triste, levantou novos paradigmas.

O ser humano, na sua frágil existência, esquece de enxergar, a pior cegueira não é a do olhar…


Vista Cansada

maio 21, 2009
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Otto Lara Resende

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.
*Obrigado ao Luiz Eduardo pela dica do texto.

→ Considerações: Breno Martins Rêgo

Otto Rezende em seu texto trás uma discursão grandiosa. Podemos pensar em diversos pontos da sociedade que nós levam ao habito, cotidiano e por fim a banalização do olhar. Será que tem que ser assim? Temos que passar pelos mesmos caminhos todo dia para trabalhar? Temos que tratar o porteiro com aquele bom dia automatico?

Parece que andamos olhando sempre o que está por vir e esquecemos o que está a volta, presente naquele momento. Eu diria que isso é uma doença moderna. Saramago, em “Ensaio sobre a cegueira”, coloca uma situação inusitada: Uma cegueira branca aplaca um país, a partir dessa enfermidade ele discorre as ações humanas e mostra que mesmo cego o homem continua “cego”. Alguns se aproveitam da situação, outros utilizam da violencia para ter o que querem. Ele tambem mostra que existem aqueles que se importam com as necessidades dos outros, que entendem a situação e tentam fazer o bem comum a todos. O livro é uma analogia a condição humana no seu estado bruto, sem lapidações.

Compartilho com vocês dois vídeos do exelente documentário “Janela da Alma” (2001) do diretor João Jardim.

Hermeto Pascoal

José Saramago