Carta da Ecopedagogia

abril 30, 2009

Carta Ecopedagogica

A Carta da Terra na perspectiva da educação

Primeiro Encontro Internacional – São Paulo, 23 a 26 de agosto de 1999.
Organização: Instituto Paulo Freire
Apoio: Conselho da Terra e UNESCO-Brasil

Em defesa de uma Pedagogia da Terra
(Minuta de discussão do Movimento pela Ecopedagogia)

1. Nossa Mãe Terra é um organismo vivo e em evolução. O que for feito a ela repercutirá em todos os seus filhos. Ela requer de nós uma consciência e uma cidadania planetárias, isto é, o reconhecimento de que somos parte da Terra e de que podemos perecer com a sua destruição ou podemos viver com ela em harmonia, participando do seu devir.

2. A mudança do paradigma economicista é condição necessária para estabelecer um desenvolvimento com justiça e eqüidade. Para ser sustentável, o desenvolvimento precisa ser economicamente factível, ecologicamente apropriado, socialmente justo, includente, culturalmente eqüitativo, respeitoso e sem discriminação. O bem-estar não pode ser só social; deve ser também sócio-cósmico.

3. A sustentabilidade econômica e a preservação do meio ambiente dependem também de uma consciência ecológica e esta da educação. A sustentatibilidade deve ser um princípio interdisciplinar reorientador da educação, do planejamento escolar, dos sistemas de ensino e dos projetos político-pedagógicos da escola. Os objetivos e conteúdos curriculares devem ser significativos para o(a) educando(a) e também para a saúde do planeta.

4. A ecopedagogia, fundada na consciência de que pertencemos a uma única comunidade da vida, desenvolve a solidariedade e a cidadania planetárias. A cidadania planetária supõe o reconhecimento e a prática da planetaridade, isto é, tratar o planeta como um ser vivo e inteligente. A planetaridade deve levar-nos a sentir e viver nossa cotidianidade em conexão com o universo e em relação harmônica consigo, com os outros seres do planeta e com a natureza, considerando seus elementos e dinâmica. Trata-se de uma opção de vida por uma relação saudável e equilibrada com o contexto, consigo mesmo, com os outros, com o ambiente mais próximo e com os demais ambientes.

5. A partir da problemática ambiental vivida cotidianamente pelas pessoas nos grupos e espaços de convivência e na busca humana da felicidade, processa-se a consciência ecológica e opera-se a mudança de mentalidade. A vida cotidiana é o lugar do sentido da pedagogia pois a condição humana passa inexoravelmente por ela. A ecopedagogia implica numa mudança radical de mentalidade em relação à qualidade de vida e ao meio ambiente, que está diretamente ligada ao tipo de convivência que mantemos com nós mesmos, com os outros e com a natureza.

6. A ecopedagogia não se dirige apenas aos educadores, mas a todos os cidadãos do planeta. Ela está ligada ao projeto utópico de mudança nas relações humanas, sociais e ambientais, promovendo a educação sustentável (ecoeducação) e ambiental com base no pensamento crítico e inovador, em seus modos formal, não formal e informal, tendo como propósito a formação de cidadãos com consciência local e planetária que valorizem a autodeterminação dos povos e a soberania das nações.

7. As exigências da sociedade planetária devem ser trabalhadas pedagogicamente a partir da vida cotidiana, da subjetividade, isto é, a partir das necessidades e interesses das pessoas. Educar para a cidadania planetária supõe o desenvolvimento de novas capacidades, tais como: sentir, intuir, vibrar emocionalmente; imaginar, inventar, criar e recriar; relacionar e inter-conectar-se, auto-organizar-se; informar-se, comunicar-se, expressar-se; localizar, processar e utilizar a imensa informação da aldeia global; buscar causas e prever conseqüências; criticar, avaliar, sistematizar e tomar decisões. Essas capacidades devem levar as pessoas a pensar e agir processualmente, em totalidade e transdisciplinarmente.

8. A ecopedagogia tem por finalidade reeducar o olhar das pessoas, isto é, desenvolver a atitude de observar e evitar a presença de agressões ao meio ambiente e aos viventes e o desperdício, a poluição sonora, visual, a poluição da água e do ar etc. para intervir no mundo no sentido de reeducar o habitante do planeta e reverter a cultura do descartável. Experiências cotidianas aparentemente insignificantes, como uma corrente de ar, um sopro de respiração, a água da manhã na face, fundamentam as relações consigo mesmo e com o mundo. A tomada de consciência dessa realidade é profundamente formadora. O meio ambiente forma tanto quanto ele é formado ou deformado. Precisamos de uma ecoformação para recuperarmos a consciência dessas experiências cotidianas. Na ânsia de dominar o mundo, elas correm o risco de desaparecer do nosso campo de consciência, se a relação que nos liga a ele for apenas uma relação de uso.

9. Uma educação para a cidadania planetária tem por finalidade a construção de uma cultura da sustentabilidade, isto é, uma biocultura, uma cultura da vida, da convivência harmônica entre os seres humanos e entre estes e a natureza. A cultura da sustentabilidade deve nos levar a saber selecionar o que é realmente sustentável em nossas vidas, em contato com a vida dos outros. Só assim seremos cúmplices nos processos de promoção da vida e caminharemos com sentido. Caminhar com sentido significa dar sentido ao que fazemos, compartilhar sentidos, impregnar de sentido as práticas da vida cotidiana e compreender o sem sentido de muitas outras práticas que aberta ou solapadamente tratam de impor-se e sobrepor-se a nossas vidas cotidianamente.

10. A ecopedagogia propõe uma nova forma de governabilidade diante da ingovernabilidade do gigantismo dos sistemas de ensino, propondo a descentralização e uma racionalidade baseadas na ação comunicativa, na gestão democrática, na autonomia, na participação, na ética e na diversidade cultural. Entendida dessa forma, a ecopedagogia se apresenta como uma nova pedagogia dos direitos que associa direitos humanos – econômicos, culturais, políticos e ambientais – e direitos planetários, impulsionando o resgate da cultura e da sabedoria popular. Ela desenvolve a capacidade de deslumbramento e de reverência diante da complexidade do mundo e a vinculação amorosa com a Terra.


Outro mundo é possivel

abril 29, 2009

Menina afegã

→ Considerações: Breno Martins Rêgo

Leonardo Boff, no Forúm Social Mundial de 2009, apresentou uma palestra para milhares de pessoas que assistiam atenciosamente um dos mais influentes filósofos preocupado com o ser humano e o meio ambiente. Ele fala de como a sociedade de consumo atrasa a preocupação com o homem e a natureza.

Segue link para downloads de uma apresentação feita inspirada nas palavras de Boff:

Download da apresentação

Segue tira da Calvin e Haroldo:
tira_calvineharoldo


VÍDEO – Eco 92

abril 23, 2009

“Severn Suzuki” da Organização das Crianças em Defesa do Meio Ambiente, durante a ECO 92 – Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento.

→ Considerações: Daniela Vieira

Ao assistir esse vídeo comecei a refletir como impomos barreiras e achamos que fazer alguma coisa é tão difícil, que acabamos não fazendo nada pelo nosso planeta. É inspirador conhecer a história dessa menina (por sinal daria uma ótima apresentação de biografia!), que com apenas 9 anos de idade, junto com alguns amigos de seu país, o Canadá, fundou a E C O (Environmental Children’s Organization) para ensinar a outras crianças sobre os problemas ecológicos. Aos 12 anos, Severn arrecadou recursos e viajou até o Rio de janeiro, onde fez um discurso que ecoa até os dias de hoje.

17 anos já se passaram da realização da ECO 92, os discursos impactantes continuam a ser lembrados mas a situação só tem piorado. Alguns relatórios atualmente divulgados remetem a um caminho traçado sem volta, e o que será que aconteceu com aquela menina tão preocupada e disposta a lutar por melhores dias? Será que como muitos se entregou no caminho, ao deixar seus sonhos de criança  e abrir os olhos para as “adultices”?

Ainda bem que não. Severn Suzuki hoje tem 29 anos é ativista ambiental, formada em Ecologia e Biologia Evolutiva pela Universidade de Yale, Estados Unidos, e sai pelo mundo dando palestras, defendendo a bandeira verde do ambientalismo.

Seu público alvo são estudantes e trabalhadores de instituições públicas e privadas. Em sua fala demonstra a sua paixão pelo tema e resgata valores já esquecidos. Desafia sua platéia a assumir responsabilidades individuais e coletivas em prol do meio ambiente.

Desenvolve muitos projetos ambientais e participa de diversas expedições científicas.

Foi membro do Painel Especial de Aconselhamento de Kofi Annan – Presidente da ONU

Diante de tanta força de vontade e busca por um ideal não dá um pouco de vergonha por cruzarmos os braços e acharmos que tudo é tão difícil e está tão distante do nosso alcance? Se até uma criança conseguiu chamar a atenção do mundo, o que nós poderíamos conseguir se lutássemos juntos por um só ideal?


O caminho mais curto para o fracasso

abril 23, 2009

Leonardo Boff

Leonardo Boff

Das muitas reflexões acerca do colapso do sistema neoliberal, três despontam com claridade. A primeira é que para salvar o Titanic afundando não bastam correções e regulações no sistema em naufrágio. Precisa-se de uma outra rota que evite o choque com o iceberg: uma produção que não se reja só pela ganância nem por um consumo ilimitado e excludente. A segunda, não valem rupturas bruscas na ilusão de que já nos transportariam para um outro mundo possível, pois seguramente implicariam no colapso total do sistema de convivência, com vitimas sem conta, sem a certeza de que das ruínas nasceria uma nova ordem melhor. A terceira, a categoria sustentabilidade é axial em qualquer intento de solução. Isso significa: o desenvolvimento necessário para a manutenção da vida humana e para a preservação da vitalidade da Terra não pode seguir as pautas do crescimento até agora vigentes (olho no PAC de Dilma Rouseff). Ele é demasiado depredador do capital natural e parco em solidariedade generacional presente e futura. Importa encontrar um sutil equilíbrio entre a capacidade de suporte e regeneração da Terra com seus diferentes ecossistemas e o pretendido desenvolvimento necessário para assegurar o bem viver humano e a continuidade do projeto planetário em curso que representa a nova e irreversível fase da história.

Esta diligência precisa acolher a estratégia da transição do paradigma atual que não garante um futuro sustentável para um novo paradigma a ser construído pela cooperação intercultural que signifique um novo acerto entre economia e ecologia na perspectiva da manutenção da vida na Terra.

Onde vejo o grande gargalo? É na questão ecológica. Ela é citada apenas en passant nas agendas políticas visando a superação da crise. Na reunião dos G-20 no dia 2 de abril em Londres, o tema não influiu na formulação dos instrumentos para ordenar o caos sistêmico. Não se trata apenas do mais grave de todos, o aquecimento global, mas também do degelo, da acidez dos oceanos, da crescente desertificação, do desflorentamento de grandes zonas tropicais e do surgimento do planeta-favela em razão da urbanização selvagem e do desemprego estrutural. E mais ainda: a revelação dos dados que mostram a insustenbilidade geral da própria Terra, cujo consumo humano ultrapassou em 30% sua capacidade de reposição.

Uma natureza devastada e um tecido social mundial dilacerado pela fome e pela exclusão anulam as condições para a reprodução do projeto do capital dentro de um novo ciclo. Tudo indica que os limites da Terra são os limites terminais deste sistema que imperou por vários séculos.

O caminho mais curto para o fracasso de todas as iniciativas visando sair da crise sistêmica é esta desconsideração do fator ecológico. Ele não é uma “externalidade” que se pode tolerar por ser inevitável. Ou lhe conferimos centralidade em qualquer solução possível ou então teremos que aceitar o eventual colapso da espécie humana. A bomba ecológica é mais perigosa que todas as bombas letais já construídas e armazenadas.

Desta vez teremos que ser coletivamente humildes e escutar o que a própria natureza, aos gritos, nos está pedindo: renunciar à agressão que o modelo de produção e consumo implica. Não somos deuses nem donos da Terra mas suas criaturas e seus inquilinos. Belamente termina Rose Marie Muraro um livro a sair em breve pela Vozes”Querendo ser Deus, por quê? “Quando tivermos desistido de ser deuses, poderemos ser plenamente humanos o que ainda não sabemos o que é, mas que já intuíamos desde sempre”.

→ Considerações: Breno Martins Rêgo

Vejo a crise ecônomica como um elefante branco que os dirigentes do capital tentarão enfiar guela abaixo de todos dizendo que é uma fase normal do capitalismo, já que ele vive de ciclos. Bem, isso pode confortar alguns, mas me deixa uma cicatriz enorme de tristeza. Penso que o ser humano a muito se desvia dos valores que o enobrecem, valores que dão significado a nossa existência. Se voltar ao humano trás consigo uma carga ecológica fundamental já que somos essencialmente natureza.

Aqui umas tiras de Mafalda para reflexão.

texto_mafalda_consumismo

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texto_mafalda_mundodoente

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texto_mafalda_democracia


LIVRO – Educar para um outro Mundo Possível

abril 23, 2009

Livros

O Fórum Social Mundial parece enfrentar o seu maior debate desde que surgiu. Como articular as múltiplas ações por um mundo novo? Como impedir que as lógicas da guerra, da mercantilização, do esvaziamento da democracia e da destruição do planeta acabem se impondo? Educar para um Outro Mundo Possível procura mostrar o papel central que a educação pode ter na construção dessas respostas.

Autor: Moacir Gadotti
Data da edição: 2007
R$ 32,00
Editora: Publisher Brasil